Placa mãe defeituosa: o que pode ser feito?

Laércio Vasconcelos
Janeiro/2003

Veremos aqui alguns pontos que devem ser tentados antes de condenarmos uma placa, bem como alguns tipos de consertos que podem funcionar.

Vale a pena consertar? 

Muito pouco pode ser feito em termos de conserto de uma placa de CPU moderna. Essas placas não foram feitas para serem consertadas. Se realmente existir um de­feito, é provável que seja necessário fazer a substituição por uma nova. Veremos agora alguns pontos que devem ser tentados antes de condenarmos uma placa, bem como alguns tipos de consertos que podem funcionar. Lembre-se que a troca da placa de CPU por uma nova pode ser uma opção altamente vantajosa. Além de termos maior desempenho, evitamos consumir um número muito grande de horas de laboratório, o que pode acabar custando mais caro que uma placa nova.

Montagem por partes - A pesquisa por defeitos em uma placa de CPU envolve testes com o menor número possível de componentes. Primeiro ligamos a placa de CPU na fonte, no botão Reset e no alto falante. Instalamos também memória RAM, mesmo que em pequena quantidade. O PC deverá funcionar, emitindo beeps pelo alto falante. A partir daí, começamos a adicionar outros componentes, como te­clado, placa de vídeo, e assim por diante, até descobrir onde ocorre o defeito. Nes­sas condições, o defeito provavelmente não está na placa de CPU, e sim em outro componente defeituoso ou então causando conflito.

Confira os jumpers - Todos os jumpers da placa de CPU devem ser checados. Er­ros na programação dos clocks e voltagens do processador impedirão o seu funcio­namento.

Chipset danificado - Quando temos uma placa de diagnóstico, a detecção de pro­blemas pode ser muito facilitada. Mesmo quando a placa de CPU está inativa, al­guns códigos de POST podem ser exibidos. Se o código diz respeito a um erro nos controladores de DMA, controladores de inter­rupção ou timers (circuitos que fazem parte do chipset), podemos considerar a placa como condenada, já que não será possível substituir o chipset.

BIOS danificado - Uma placa de CPU pode estar ainda com o BIOS defeituoso (uma placa de diagnóstico apresentaria este resultado, o display ficaria apagado). Não é possível substituir o BIOS pelo de outra placa (a menos que se trate de outra placa de mesmo modelo), mas você pode, em laboratório, experimentar fazer a troca. Se beeps forem emitidos, ou se uma placa de diagnóstico passar a apresentar valores no display, fica caracterizado que o BIOS original está defeituoso ou apagado.

Capacitor danificado - A placa de CPU pode estar com algum capacitor eletrolítico danificado. Com o passar dos anos, esses capaci­tores podem apresentar defeitos, principalmente assumindo um comportamento de resistor, passando a consumir corrente contínua. Desta forma, deixam de cumprir o seu papel principal, que é fornecer corrente aos chips durante as flutuações de ten­são. Toque cada um dos capacitores e sinta a sua temperatura. Se um deles estiver mais quente que os demais, provavelmente está defeituoso. Faça a sua substituição por outro equivalente ou com maior valor de tensão, de capacitância e de faixa de temperatura.  

Figura 4
Capacitor eletrolítico.

 

 

Cristais danificados – As placas de CPU possuem vários cristais, como os mostra­dos na figura 5. Esses frágeis componentes são responsáveis pela geração de sinais de clock. Os cristais mais comuns são apresentados na tabela abaixo.

Freqüência

Função

32768 Hz

Este pequeno cristal, em forma de cilindro, gera o clock para o CMOS. Define a base para contagem de tempo.

14,31818 MHz

Nos PCs antigos, este cristal servia apenas para gerar o sinal OSC que é enviado ao barramento ISA. Sem ele a placa de vídeo pode ficar total ou parcial­mente inativa. Algumas placas de expansão também podem deixar de funcionar quando o sinal OSC não está presente. Algumas placas de diagnóstico são capazes de indicar se o sinal OSC está presente no barramento ISA. Nas placas modernas este cristal é importantíssimo, pois é usado como referência pelo chip gerador de clocks, e a partir dele é gerado o clock do processador, das memórias, dos barramentos, etc. Portanto quando este cristal está danificado o computador fica totalmente inativo.

24 MHz

Este cristal é responsável pela geração do clock para o funci­onamento da interface para drives de disquetes. Quando este cristal está danificado, os drives de disquete não funcionam.

 

Figura 5
Cristais de uma placa de CPU.

 

 

 

Nem todos os clocks são gerados diretamente por cristais. Existem chips sintetiza­dores de clocks, como o CY2255SC, CY2260, W48C60, W84C60, CMA8863, CMA8865, CY2273, CY2274, CY2275, CY2276, CY2277, ICS9148BF, W48S67, W48S87, entre outros. Esses chips geram o clock externo para o processador e ou­tros clocks necessários à placa de CPU, como por exemplo o clock necessário ao barramento USB. Todos esses clocks são gerados a partir de um cristal de 14,31818 MHz, o mesmo responsável pela geração do sinal OSC. Nessas placas, se este cris­tal estiver danificado, não apenas o sinal OSC do barramento ISA será prejudicado – todos os demais clocks ficarão inativos, e a placa de CPU ficará completamente paralisada. Normalmente os chips sintetizadores de clocks ficam próximos ao cristal de 14,31818 MHz e dos jumpers para programação do clock externo do processa­dor. Dificilmente esses chips ficam danificados, mas o cristal pode quebrar com um pequeno choque mecânico.  

Figura 6
Um chip sintetizador de clock. Observe o cristal 14.31818 MHz ao seu lado, bem como os jumpers para selecionamento do clock externo do processador.

 

Reguladores de voltagem – Esses são os componentes responsáveis por gerar as tensões necessárias aos processadores. Recebem em geral 5 volts ou 3,3 volts (de­pendendo da fonte) e geram tensões de acordo com as voltagens interna e externa requeridas pelos processadores. As saídas dos reguladores podem ser medidas com um multímetro, e em caso de defeito (normalmente o regulador fica frio e com 0 volts na saída) é possível ser feita a substituição por um similar. Encontrar um regulador similar pode ser uma tarefa árdua. Uma forma simples mas que depende de sorte é encontrar um regulador bom em uma placa de sucata. Outra forma é usar o número do componente para fazer uma busca na Internet, localizando o seu datasheet no site do fabricante. A partir daí podemos procurar nas lojas de eletrônica, um outro regulador com mesmas características de pinagem, tensão e potência. É trabalho para quem está altamente envolvido com eletrônica, por isso muitas assistências técnicas preferem condenar a placa e instalar uma nova.

Figura 7
Reguladores de voltagem.

 

Interface de teclado – Muitas placas de CPU produzidas até aproximadamente 1997 utilizam uma interface de teclado formada pelo chip 8042. Em geral este chip possui a indicação Keyboard BIOS. Todos esses chips são compatíveis. Em caso de mau funcionamento na interface de teclado, você pode procurar obter este chip em uma placa de CPU danificada, encontrada à venda em sucatas eletrônicas.

Figura 8
Interface de teclado 8042.

 

 

 

Troca do processador – A culpa de todo o problema pode ser o próprio processa­dor, por estar danificado. Você pode fazer o teste instalando em seu lugar outro processador equivalente, ou então outro modelo que seja suportado pela placa de CPU. Neste caso será preciso, antes de ligá-la com o novo processador, configurar corretamente os jumpers que definem os clocks e voltagens do processador.

Instale uma interface auxiliar – Uma placa de CPU pode ficar com uma determi­nada interface danificada. Como essas interfaces estão localizadas nos chips VLSI, é inviável consertá-las. Para não condenar a placa só por causa de uma interface, po­demos desabilitar no CMOS Setup a interface danificada e deixar a placa funcionar sem esta interface. Uma COM1 não fará falta, pois podemos ligar o mouse na COM2, ou então na interface para mouse padrão PS/2. Uma outra solução é instalar uma placa IDEPLUS de 16 bits. Devemos deixar esta placa com todas as suas interfaces desabilitadas (isto é feito através dos seus jumpers) e habilitar apenas a interface correspondente à que está defeituosa na placa de CPU. O custo desta placa IDEPLUS é muito menor que o de uma placa de CPU nova.

Vazamento da bateria - Baterias de níquel-cádmio podem vazar, deixando cair um ácido que deteriora as trilhas de circuito impresso à sua volta. Você verá na parte afetada, uma crosta azul, que é o resultado da reação entre o ácido e o cobre das trilhas de circuito da placa. Quando a área deteriorada é muito grande, é pre­ciso descartar a placa de CPU. A figura 9 mostra um vazamento que não chegou a causar estragos significativos.

Figura 9
Uma bateria com vazamento. Observe o ataque que o ácido fez na placa.

Quando isto ocorre devemos antes de mais nada retirar a bateria. Usamos spray limpador de contatos e algodão para limpar a parte corroída. Pode ser possível recuperar a área afetada, raspando os terminais dos componentes (em geral não existem chips próximos da bateria, apenas resistores, capacitores, diodos, etc) e reforçando a soldagem. Também pode ser necessário reconstruir trilhas de circuito impresso corroídas pelo ácido. Use uma pequena lixa para raspar a parte afetada do cobre, e aplique sobre o cobre limpo, uma camada de solda. Solde uma nova bateria e deixe o PC ligado para carregá-la. Se as funções do PC estiverem todas normais, a placa de CPU estará recuperada. Use esmalte de unhas transparente para cobrir a área da placa na qual foi feito o ataque pelo ácido. O cobre exposto poderá oxidar com o tempo, e o esmalte funcionará como o verniz que os fabrican­tes aplicam sobre as placas para proteger o cobre da oxidação. Se continuar com problemas será pre­ciso comprar uma nova placa de CPU.

Figura 10
Protegendo a placa mãe com cola plástica.

 

Veja o estrago que a placa de CPU da figura 10 sofrerá em caso de vazamento da bateria. Logo ao seu lado existe um chip VLSI, no caso o Super I/O, que se estragar, deixará o PC sem interface de disquetes, seriais, paralela, CMOS e várias outras funções. Você pode reduzir bastante o risco de dano por vazamento, cobrindo a área em torno da bate­ria com cola plástica. Espere algumas horas até a cola secar, antes de ligar novamente o computador.

É melhor comprar uma placa nova – Uma placa de CPU pode estar com um chip VLSI danificado, ou uma trilha partida, ou ainda um capacitor, diodo, bobina ou transistor danificado. Chegamos ao ponto em que para consertar a placa seria ne­cessário usar um osciloscópio, ter o esquema da placa, equipamento especial para soldagem e dessoldagem de componentes VLSI, e principalmente, chips VLSI para reposição. Levando em conta que o preço de uma placa nova é relativamente baixo, não vale a pena investir nesses equipamentos, e nem perder várias horas neste tipo de conserto. É hora de desistir de consertar a placa e comprar uma nova.

/// FIM ///

 

 

 

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