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2008 – Não pode mais falar “computador” ???

Não pode mais falar “computador”?

Acho estranho quando escrevo algo que não trata sobre processadores, hardware ou assuntos técnicos em geral. Mas algumas vezes vejo coisas revoltantes e tenho que me manifestar. A revista Veja dessa semana traz uma matéria chamada “A prisão da língua”. Transcrevo aqui as primeiras linhas:

A Comissão de Constituição e justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados deu um passo atrás há uma semana. O grupo aprovou por unanimidade o projeto do deputado federal Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil, que pretende banir o uso de palavras estrangeiras em anúncios publicitários, meios de comunicação, documentos oficiais, letreiros de lojas e restaurantes. Caso o projeto se torne lei, quem for comprar um mouse para o computador terá que procurar na prateleira por um “rato”. Aliás, ao comprar o próprio computador, terá que pedir ao lojista por um “ordenador”. Não se poderá promover mais shows, e sim, “apresentações musicais”…

É preciso tomar cuidado com tudo o que lemos na mídia. Não li o documento oficial do projeto de lei, o que me permitiria opinar de forma mais detalhada. O texto cita a proibição em anúncios e meios de comunicação, e não dentro de uma loja, mas uma coisa leva a outra. Ninguém vai anunciar “ordenador” e vender “computador”, tudo vai acabar virando “ordenador”. A proibição parcial é meio caminho andado para a proibição total. “Meio de comunicação” pode incluir publicações técnicas, Internet ou qualquer outra coisa. É sem dúvida, um retrocesso.

Lembro que nos anos 80, o grande e respeitado professor da USP, Luis Antonio Zuffo, usava termos técnicos sempre traduzidos. Por exemplo, ROM era traduzido em seus livros como MAL (Memória de Apenas Leitura), e assim por diante. Uns alunos engraçadinhos traduziram o nome dele como “ZOVNI” (UFO estaria em inglês). Brincadeiras à parte, considero o prof. Zuffo um grande mestre, um pioneiro do hardware e da microeletrônica no Brasil.

Também em meados dos anos 80, surgiu lá uma lista de termos traduzidos da informática, não me lembro se foi proposta pela ABNT ou pelo ministério da ciência e tecnologia, mas o fato é que queriam traduzir “software” como “logiciário”, e coisas bizarras assim. Também não pegou. As traduções que “pegaram” não foram impostas pelo governo, e sim disseminadas aos poucos entre os profissionais e as publicações técnicas, como “motherboard” que virou “placa mãe”, “drive” que foi traduzido como “unidade”, e assim por diante, mas nunca como imposição.

Na França, os termos técnicos da informática foram traduzidos, como: Byte=”Oté” (Octeto), computador=ordinateur, software=logicique, digital=numerique, etc. Não sei se a tradução foi imposição do governo ou surgiu naturalmente no meio técnico, mas com certeza foi uma transição fácil, devido ao repúdio e má vontade dos franceses em relação às línguas estrangeiras.

Voltando ao caso brasileiro, não significa que tudo vai ser traduzido, mas a notícia é digna de discussão. Em um certo noticiário (não me lembro qual foi, mas vou citar assim mesmo), foi dito que no ano de 2007, a câmara dos deputados aprovou um único projeto, o que trata sobre a regulamentação do uso de verbas oficiais nas campanhas eleitorais. Um projeto aprovado em um ano para mais de 500 deputados, é a menor produtividade do Brasil. Projetos foram vários, mas apenas este citado virou lei. Cerca de 30% dos projetos foram para criação de datas comemorativas (não é preciso um grande intelecto para criar datas). Um exemplo citado foi o do Clodovil, segundo deputado mais votado do estado de São Paulo, que logo mudou de partido ao chegar a Brasília. Ele submeteu um projeto para a criação do dia das mães adotivas, seria o terceiro domingo de maio.

Se é tão importante preservar a língua portuguesa, porque não uma lei para proibir escrever errado em anúncios, como “de sexta à domingo nos cinemas”? Ou porque não projetos para melhorar o nível dos políticos brasileiros, como “acabar com os cargos de confiança e contratações sem concurso”, “acabar com as eleições obrigatórias, desmontando rebanhos eleitorais”, ou “obrigatória a prestação de contas aberta, pela Internet, de toda a contabilidade dos órgãos públicos federais, estaduais, municipais e empresas estatais”? Essas coisas são complicadas e precisam de muito estudo e discussão, mas podem resultar em melhoramentos para o país. Mas criar datas comemorativas e regulamentar o uso de palavras é mais fácil.

Note que nesse artigo não estou afirmando que vai ser proibido falar computador, ele pergunta se isso vai ocorrer (tem um “?” no título). A lei não especifica as palavras que podem e as que não podem ser usadas no idioma original. A revista Veja especula sobre a troca do computador por “ordenador”, como citei, é sempre preciso filtrar o que é divulgado na mídia, e convidei os leitores à discussão, bastante produtiva.

Acrescento que uma proibição parcial pode ser convertida em proibição total, dependendo da vontade de quem aplica a lei. Já vimos várias vezes juízes fazerem proibições polêmicas baseadas na sua própria interpretação da lei. Vimos aqui no fórum pessoas totalmente contrárias a essa lei, pessoas simpatizantes, e defensores com entusiasmo. Bastará um juiz defensor com entusiasmo para que interprete a lei sob seu ponto de vista e promova uma proibição total. Proibições parciais são muito perigosas, pois podem ser usadas como proibição total por quem está no poder.

Todo mundo aqui já consertou um computador, e sabe que não basta retirar as peças defeituosas. É preciso colocar peças boas, e providenciar para que essas peças boas funcionem corretamente, da melhor forma possível, com eficiência. Não se constrói um grande país com base em leis de proibição. O Brasil já tem muitas normas, muitas sobre proibições. É preciso um outro tipo de ação, tornar o estado eficiente, usar melhor o dinheiro dos impostos, avançar com a educação, tantas outras coisas que o país precisa.

Se quisermos viver em uma democracia, mesmo que capenga, é preciso saber tolerar as diferenças. Se pessoas acham legal exagerar em termos em inglês, como “case”, “off”, “delivery”, “discount” (e tantas outras, principalmente no chamado “jargão corporativo”), deixe que falem assim. Eu também acho isso e muitas outras coisas ridículas, mas é preciso saber conviver. Se você tem um filho e ele faz 20 coisas erradas, é melhor você dar bronca sobre as 10 mais sérias, apenas comentar sobre as 5 seguintes, e só fazer uma cara feia sobre as 5 mais leves, senão vai passar o tempo todo dando broncas.

O que quero dizer é que o Brasil precisa de muitas coisas importantes, tem as pessoas para realizarem essas coisas importantes que não deveriam se dar ao luxo de desperdiçar seus recursos e energia com ações que não vão resultar em emprego para quem precisa, comida para quem tem fome, educação para vencer a ignorância.