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2006 – Windows emburrece?

Autor: Laércio Vasconcelos
Mai/2006
O Windows é um sistema operacional que sem dúvida tornou o uso dos micros muito mais fácil, o que é bom sobretudo para os usuários iniciantes. O resultado foi a popularização dos computadores, permitindo a redução dos seus preços. Por outro lado, essa facilidade toda cria a ilusão de que para usar o micro não é preciso entender coisa alguma de informática.

Windows emburrece?
Todo mundo que usa computadores há alguns anos percebeu como ficou fácil a sua utilização. Há 5 anos atrás era preciso, por exemplo, criar manualmente a conexão com a Internet, sem o uso de assistentes. Há 10 anos, a instalação do Windows necessitava da criação de um disquete especial com os drivers que davam acesso à unidade de CD-ROM. Há 15 anos atrás era preciso criar arquivos CONFIG.SYS e AUTOEXEC.BAT para que os programas pudessem usar corretamente a memória. Era também preciso se preocupar em descobrir os endereços de E/S, canais de DMA e IRQ para instalar novas placas no computador. Há 25 anos atrás o usuários precisava criar seus próprios programas aplicativos, já que os disponíveis no mercado eram muito raros.

Foi muito bom o uso dos micros ter ficado mais fácil. O seu uso difícil de antigamente funcionava como uma barreira natural que separava os usuários informatizados dos não informatizados. Escolaridade, criatividade e percepção lógica eram necessárias para um usuário independente. Aqueles que não tinham a facilidade natural para absorver os conhecimentos precisavam realizar cursos específicos. O número de pessoas que usavam computadores era pequeno, e os seus preços eram muito mais elevados. Isso tudo dificultou a popularização dos micros. No Brasil ainda existia um agravante. A polêmica reserva de mercado obrigava o usuário brasileiro a pagar muito mais caro, e usar micros defasados em relação à tecnologia. Por exemplo, 10 anos depois do lançamento, ainda eram vendidos no Brasil micros compatíveis com o IBM PC XT.

Podemos falar mal da Microsoft por vários motivos, mas para sermos honestos precisamos destacar alguns pontos positivos. Mesmo com todos os seus problemas, o Windows tem tornado o uso de computadores cada vez mais fácil. O padrão Plug and Play, apesar de algumas vezes funcionar como “plug and pray”, tornou a instalação de dispositivos de hardware facílima, na maioria dos casos. Mais pessoas agora podem usar micros, e eles ficaram mais baratos. Nos tempos em que o uso do computador era difícil, só o papai (que normalmente usava micros no trabalho) o usava em casa. Hoje a mamãe (que normalmente não usava micros, a menos que os usasse no seu trabalho) também usa, assim como os filhos. Muitas residências têm agora, mais de um computador. Os preços ficaram menores, graças à popularização impulsionada pela facilidade de uso. Tudo isso deixa felizes aqueles que gostam da informática.

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Figura 1: Que bom, o Windows tem um assistente de câmera!

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Figura 2: Copiar e colar, só para “usuários avançados”

O lado ruim é que a facilidade de uso é muitas vezes artificial, e o usuário está apenas usando uma pequena parte da potencialidade do computador. O Windows incentiva o usuário a usar o computador, mesmo sem entender nada sobre computadores. Para a grande maioria dos que começaram a usar micros recentemente só devido à atual facilidade, tudo se resume em: 1) Ligar o micro; 2) Clicar no ícone “E” azul; 3) Navegar à vontade, clicando aqui e ali.

Será que um usuário que sabe fazer apenas isso pode se considerar informatizado? Tem algum mal no usuário saber, por exemplo, clicar em Meu computador, clicar no ícone da câmera digital, selecionar as fotos, criar uma pasta no disco rígido e usar o velho comando copiar/colar? No Windows XP, este método é classificado como “para usuários avançados”. Para os normais, tudo pode ser feito pelo assistente de rede. Isso é uma mentira. Saber copiar e colar não torna um usuário avançado, assim como não saber fazer essas coisas não torna um usuário “intermediário”. Se o Windows fosse “dizer a verdade”, deveria ser, “puxa, você não sabe nem copiar arquivos, use então esse assistente e veja se aprende informática!”. O usuário que não sabe fazer quase nada de informática é iludido de que ele pode continuar usando o computador, fazendo tarefas básicas, sem procurar aprender mais. Por exemplo, um dia ele vai chamar o técnico para consertar o computador, que não entra no Windows. É porque ele esqueceu um disquete dentro do drive…

É bom que tudo seja fácil, mas é ruim que não seja avisado ao usuário leigo que ele precisa aprender um pouco mais. Ma$ deixar o u$uário leigo pen$ar que i$$o é normal, é bom para a$ empre$a$ que vendem o computador e o$ programa$.

Um usuário leigo recebe um CD com filmes e fotos. Ele coloca o CD na unidade e o Windows XP apresenta automaticamente um menu, e ele escolhe “Visualizar com o Windows Media Player”. Ele vê então os filmes, mas fica sem saber que existem também fotos, porque não sabe clicar em Meu computador, no ícone do CD e ver as pastas existentes no disco.

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Figura 3 – Executar com o Media Player não mostra o conteúdo completo do CD.

O usuário leigo não sabe a diferença entre um arquivo “Melhores da playboy.JPG” e “Melhores da playboy.JPG.EXE”. Vai chamar de “dica”, um simples comando básico do sistema operacional que ele deveria conhecer. Vai chamar o técnico porque esqueceu um disquete dentro do drive (o lado bom: muito serviço para os técnicos). Vai clicar em um link para ver uma figura e vai ser avisado de que é preciso baixar e instalar um pequeno programinha executável para permitir a correta visualização. Vai comprar micros de má qualidade, ou exagerados, ou inadequados para a sua aplicação. Vai pensar que sabe informática e “ajudar” colegas que sabem pouco. Afinal, os filmes mostram que é tão fácil…

Aos poucos o grande público vai se informatizando. Ainda bem que é fácil. Se fosse mais difícil, muitos não estariam usando micros. Mas talvez esses usuários neófitos devessem saber que são, com todo o respeito, praticamente leigos em informática, e que deveriam procurar aprender um pouco mais, ao invés de deixar o Windows fazer tudo. A maioria vai continuar leiga, pelo menos isso é bom porque facilita a informatização. Mas seria bom se eles soubessem que precisam evoluir em informática. Não estou dizendo que usar o computador deveria ser uma coisa difícil. Digo que é bom que seja fácil, mas isso deve ser um ponto de partida para o usuário perder o medo e fazer um melhor uso desta incrível e útil ferramenta. Afinal, aprender e evoluir são coisas da natureza humana.

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