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2006 – Revista Veja e os “micros piratas”

Autor: Laércio Vasconcelos
Julho/2006

A revista Veja dessa semana (10 a 14/jul/06) traz uma matéria com título “Adeus ao PC de fundo de quintal – As vendas de computadores de marca já empatam com as dos montados com peças piratas”. Não podíamos deixar passar sem comentários uma matéria que parece ter sido feita por alguém mal informado sobre o mercado de brasileiro informática, e que na nossa opinião foi tendenciosa a favor dos ditos “micros de marca”.

 

Revista Veja e os “micros piratas”

A revista Veja dessa semana (10 a 14/jul/06) traz uma matéria com título “Adeus ao PC de fundo de quintal – As vendas de computadores de marca já empatam com as dos montados com peças piratas”. Não podíamos deixar passar sem comentários uma matéria que parece ter sido feita por alguém mal informado sobre o mercado de brasileiro informática, e que na nossa opinião foi tendenciosa a favor dos ditos “micros de marca”. Vamos comentar a matéria na íntegra, a começar pelo título.

Adeus ao PC de fundo de quintal – As vendas de computadores de marca já empatam com as dos montados com peças piratas.

O que é uma “peça pirata”? Para o público não especializado em informática, a palavra “pirata” tem o mesmo sentido que em “CD Pirata”, “programa pirata”, “tênis pirata”, “perfume pirata”, “camiseta pirata”. Em geral a palavra “pirata” significa “falsificado”. Leva o leitor a pensar que o micro sem marca é feito com peças falsificadas. No título é informado que os micros de marca empatam com os sem marca, porém mais adiante é dito que na verdade os micros de marca correspondem a 43%, contra 57% dos micros montados. Note ainda que todos os micros de marca são contabilizados e declarados, já que saem de poucas e grandes empresas. Os micros montados são todos declarados?

001

Os fabricantes brasileiros de computadores estão se preparando para comemorar uma grande virada até o Natal deste ano. Pela primeira vez, as vendas de PCs de marca devem superar as das chamadas máquinas cinza, aquelas recheadas com memória, processador e programas contrabandeados ou piratas.

Então agora está bem explicado. No título é dito que “já empatam”, e agora é dito que isso ocorrerá na verdade no final do ano. Quanto às chamadas “máquinas cinza”, quem as chama assim no ramo da informática? O usuário final não faz muita distinção entre os dois tipos. A seguir é bem explicado: têm memória, processador e programas que podem ser todos eles, contrabandeados ou piratas. Então existem memórias contrabandeadas (correto), processador contrabandeado (correto), programas contrabandeados (errado), memórias piratas (errado), processador pirata (errado) e programas piratas (certo). Essas características não diferenciam corretamente os micros de marca e as “máquinas cinza”. Um micro montado em uma pequena loja usa hoje em dia, muitas vezes, placa mãe produzida no Brasil (existem atualmente 5 ou 6 fábricas), disco rígido produzido no Brasil, monitor produzido no Brasil, processadores “box” importados legalmente, unidades de CD, gabinetes, memórias e placas que entram no Brasil, não dentro de malas de muambeiros, mas fornecidos por alguns poucos e grandes distribuidores. O programa pirata é opção do usuário, e não de quem produz o micro. Preferem pagar R$ 10,00 por um Windows pirata que R$ 600,00 por um Windows original, idem para o Office, Photoshop e outros programas. O micro de marca consegue redução de preço porque vem com Windows XP Starter Edition (que é um lixo) ou o Linux. O sujeito que compra um computador no supermercado toma logo a primeira providência: instalar um Windows XP pirata.

De acordo com a Internacional Data Corporation (IDC), consultoria que realiza pesquisas de mercado na área de tecnologia e telecomunicações, dois anos atrás os PCs montados em fundo de quintal representavam 74% das vendas. No início deste ano, já tinham sua fatia reduzida para 57%.

Incontestável, o que uma consultoria divulga, normalmente acreditamos. Mas agora foi bem explicado que a proporção atual não é meio a meio, e sim, 43% contra 57%. Esses números podem estar bastante distorcidos, primeiro porque todos os micros de marca são contabilizados, e as “máquinas cinza” não são. Adicionamos também que a venda de notebooks (5%, segundo a própria IDC) tem apresentado um crescimento expressivo, e não existem “notebooks montados”, praticamente todos são de marca, contabilizados na pesquisa e engordam a estatística de 43%.

A mudança afeta as pequenas empresas, que sobrevivem na informalidade, sem prestar contas à Receita Federal, e ao montador de micros – aquele amigo da família que já prestou serviços a toda a vizinhança com peças das quais nem ele sabe a procedência.

Todas as pequenas empresas, de todas as áreas, sobrevivem com algum tipo de informalidade, já que a carga tributária brasileira é altíssima e a burocracia é imensa. Está correto dizer que a mudança afeta as pequenas empresas, que como sabemos, empregam muito mais. A fábrica de placas mãe da Asus/Itautec, em São Paulo, emprega menos de 20 pessoas na linha de montagem de placas mãe. O fato de uma pequena empresa sonegar os impostos não tem relação alguma com a qualidade das peças usadas na montagem do computador. Muito pelo contrário, existem muitos micros de marca com 128 MB de memória e com placa mãe daquelas marcas que não gostamos, como PC Chips e ECS. O montador de micros autônomo citado deve ser personagem de uma experiência negativa do autor da matéria. Note que a expressão “nem ele sabe a procedência” dá ao leitor não especialista em informática, a idéia do que pode acontecer quando compramos algo de procedência desconhecida – pode ser falsificação, peça recondicionada ou coisa pior. Por outro lado, existem certos “micros de marca” com peças cuja procedência é realmente conhecida: Placas mãe PC Chips produzidas em Manaus, placas ECS produzidas na China.

No lugar deles, entram os produtos de fabricantes conhecidos como Positivo, HP e Dell.

Que usam placas mãe Gigabyte, MSI, Asus, Intel, discos rígidos Seagate e Samsung, memórias Samsung e Kingston, monitor LG ou Samsung… As mesmas peças de uma “máquina cinza” montada de forma profissional.

As vantagens para o consumidor nesta nova fase começam pelas formas de pagamento. Enquanto é praticamente impossível conseguir crédito com os contrabandistas, as lojas e os sites de fabricantes ou de comércio eletrônico dividem o valor em 10 vezes sem acréscimo ou, em alguns lugares, em 24 vezes com juros de no mínimo 1,99%.

Contrabandista não vende computador. Vendem peças que abastecem o mercado “informal”. Ninguém pode afirmar com certeza que entre os grandes fabricantes, 100% do material é importado legalmente. Existem relatos de containers inteiros já apreendidos que estavam endereçados ao mercado formal. Quanto ao contrabando em si, existe de tudo no Brasil, e não só na informática. Das quinquilharias chinesas que abastecem os camelôs, aos perfumes, bebidas e roupas verdadeiros mas que entram por vias “alternativas” e abastecem grandes lojas, até as importações fraudadas da Daslu. Sugerimos ao autor escrever uma matéria sobre como entram no Brasil mercadorias verdadeiras e de alto valor, na forma de contrabando. Com a ajuda de bancos oficiais fica fácil dar crédito para o varejo. As pequenas lojas conseguem dinheiro a taxas bancárias elevadas, quase tão altas quanto as do cartão de crédito e cheque especial. Os grandes fabricantes parcelam, não porque conseguem crédito com seus importadores formais (ao contrário dos contrabandistas, que como sabemos, não dão crédito), e sim, através de programas oficiais do governo para financiamento de informática.

O valor mensal, nesse último caso, oscila entre 50 e 70 reais, o que tornou o computador acessível até mesmo à classe C, que representa um terço da população brasileira.

Muito bom, esse é o lado Positivo da coisa. Isso também poderia ser feito se o governo criasse as mesmas linhas de crédito, mas diretamente ao consumidor, para comprar “máquinas cinza”. Ou que as pequenas lojas tivessem acesso fácil a esse crédito.

Uma prestação de 50 reais por mês, se fosse com juros de 0% ao mês, daria R$ 1200,00 no total. Com isso dá para comprar um micro bem simples, mas sem monitor. Uma aluna comprou o micro do milhão, com Celeron de 2.13 GHz, 128 MB de memória, HD de 20 GB, gravador de CDs, monitor e Windows XP Home, mas eram 48 parcelas de 48 reais, e não 24 parcelas.

Depois da compra, caso o consumidor tenha algum problema, agora há a quem ocorrer. Pode-se usar o auxílio por telefone (de eficiência um pouco aquém da desejada, é certo) ou utilizar a garantia.

Gostei do eufemismo “de eficiência um pouco aquém da desejada, é certo”. Caberia melhor um termo popular: “ninguém merece”. Da forma como está escrito, dá a entender que ao comprar uma “máquina cinza”, não há a quem recorrer ou que não existe garantia. Comprando em um montador de micros desconhecido, pessoa física, que faz tudo pelo celular e não divulga telefone fixo nem endereço, existe realmente esse risco. O mesmo perigo existe ao comprar em uma loja estilo “estande” que aperece e desaparece da noite para o dia. Mas está sendo generalizado para lojas idôneas e estabelecidas.

Também é de esperar que o rodízio entre fabricantes diminua. Se antes marcas como Microtec e Five Star apareciam e sumiam do dia para a noite, agora se pode presumir que os nomes que estão nas gôndolas durem por muito mais tempo.

Com certeza HP e Dell ficarão por muito tempo. A Novadata (aquela cujo dono é amigo pessoal do presidente Lula) também parece que vai ficar no mercado por muito tempo, pois opera desde os anos 80. Os grandes fabricantes simplesmente têm esnobado o consumidor final, pois é muito mais vantagem vender computadores aos milhares para o governo, esse foi um dos motivos da existência da lacuna que foi preenchida pelas “máquinas cinza”. Muitos fabricantes sumiram justamente por concentrar grande parte das vendas no mercado de varejo, quando o grande “filão” é vender para o governo.

Vários fatores contribuem para baixar o preço do PC. O mais importante é a queda do preço do dólar. O câmbio favorável barateou a importação dos componentes pelos grandes fabricantes. Também ajudou a ação da polícia Federal contra o contrabando, principalmente em Foz do Iguaçu, tradicional porta de entrada da muamba eletrônica.

Dá a impressão que só os micros de marca ficaram baratos por isso. A redução do dólar provoca a queda dos micros como um todo. Fica mais barato para os grandes fabricantes importarem, fica mais barato para os fabricantes de “máquinas cinza” importarem. A questão é que esse dólar oficial a R$ 2,15, vale para a importação legalizada, mas o dólar usado pelos digamos, contrabandistas, é o paralelo. Fazer uma importação legalizada é uma operação fácil para empresas grandes, é verdade. A burocracia é tanta que só vale a pena em grande volume. Pequenas lojas teoricametne podem importar peças legalmente (ainda assim seriam consideradas “cinza”, já que as peças não chegam por canais oficiais), mas como operam com menor volume, precisam apelar para o contrabando. Lembramos mais uma vez que atualmente a maioria das peças podem ser compradas no Brasil, legalmente, como disco rígido, placa mãe, monitor, gabinete, etc. Esses pequenos montadores compram a maior parte das suas peças por vias legais, mas ainda usam uma parcela de fornecimento ilegal, é bem verdade.

Um pequeno montador de micros pode optar por comprar 100% das peças em grandes distribuidores legalizados no Brasil. O grande problema é que esses distribuidores trabalham principalmente com produtos para as massas. O montador seria obrigado a usar placas PC Chips, por exemplo, não teria acesso a itens mais sofisticados como placas de vídeo de alto desempenho. Quanto ao controle maior da entrada via Paraguai, é verdade. Grande parte das peças de micros que entram ilegalmente no país, chegam de lá.

A medida provisória 252, a MP do Bem, de meados do ano passado, reduziu a cobrança de PIS-Cofins e deixou os chamados micros populares, com preços de até 2500 reais, pelo menos 10% mais baratos.

A redução de impostos é sempre benéfica para a indústria e para o aumento do consumo. Também seria muito benéfica a total eliminação de impostos sobre produtos de tecnologia. Não itens de consumo como câmeras digitais, mas exclusivamente as peças do computador, que contribuem para dar à população de baixa renda, acesso à tecnologia.

Os notebooks produzidos no Brasil de até 3000 reais foram igualmente beneficiados, o que fez dobrar as vendas de PCs portáteis no ano passado.

Seria justo trocar a palavra “produzidos” por “montados”. Afinal as peças todas vêm de fora mesmo. O termo “produzidos” dá uma idéia de grande geração de empregos e do surgimento de inúmeras indústrias que fabricam peças para a produção de micros e notebooks, o que não é verdade. O termo “montados” dá a idéia de “máquina cinza” que o artigo quer exorcizar.

NÃO COMPENSA A diferença de preço em relação ao PC de marca é tão pequena que o montado em fundo de quintal não vale mais a pena

CONFIGURAÇÃO

Processador Intel Celeron D325, 256 MB de RAM, disco rígido de 40 GB, gravador de CD, controladora de vídeo e som, leitor de disquete 1.44 MB, teclado, mouse, caixas de som, fax-modem, monitor de LCD de 15 polegadas, Windows XP Starter Edition.

TOTAL

Computador montado: 1719 reais*
Computador de marca: 1999 reais**
Diferença: 14%

* Preços na Rua Santa Ifigênia, o centro de produtos eletrônicos de São Paulo
** Preço médio em supermercados

Dentro da matéria existe um box com as informações acima, mostrando que o micro montado é apenas 14% mais barato que o micro de marca. Subtraia de ambos o preço do Windows XP Starter Edition que nem o usuário do micro de marca, nem o do micro montado, irá usar. Ambos irão formatar o HD e instalar o Windows XP pirata, ou então ambos irão comprar o Windows XP original na loja. Seja qual for o caso, o sistema operacional usado independe da máquina, e somá-lo ao preço do micro conbribui para reduzir artificialmente a diferença percentual entre os preços dos dois micros. O mesmo podemos dizer a respeito do monitor LCD. A maior parte dos modelos à venda no Brasil são comercializados legalmente. O usuário pode comprar uma “máquina cinza” sem monitor e comprar um monitor LCD oficialmente. Aliás, muitos fabricantes de micros de marca oferecem a máquina sem monitor, que é vendido separadamente. Descontando o preço do Windows e do monitor, que empatam para os dois casos, a diferença fica muito maior que os 14% calculados pela revista.

Com tudo isso, a diferença de preços entre a máquina cujo fabricante paga todos os impostos e aquela montada na informalidade caiu vertiginosamente. Com peças compradas na rua Santa Ifigênia, um dos paraísos da pirataria na capital paulista, uma máquina de configuração básica pode sair 14% mais barata que a similar vinda de fábrica – a diferença é pequena demais para compensar o risco de defeitos e a falta de garantia do produto cinza.

Lojas sérias que trabalham com micros montados oferecem normalmente garantia de 1 ano para suas máquinas, equivalente à dos grandes fabricantes citados. E como já argumentamos, a diferença é muito maior que os 14% citados.

“O governo baixou os impostos e deixou que a iniciativa privada tomasse a dianteira. É a coisa certa”, diz Ivair Rodrigues, diretor de pesquisas da ITData Consultoria.

Chamar camelôs de iniciativa privada é exagero. Chamar o sujeito que vende micros por celular, não divulga telefone fixo nem endereço, de iniciativa privada, também é exagero. Mas as lojas que trabalham a sério é tão iniciativa privada quanto os grandes fabricantes. O governo não fez nada para incentivar os pequenos fabricantes, como fez para os grandes.

A mudança no comércio de computadores segue a tendência iniciada pelas impressoras. Em 1998, quando as primeiras empresas começaram a fabricar no Brasil impressoras de jato de tinta, o contrabando representava 80% das vendas. Dois anos depois caiu para 30%. Hoje, as quatro empresas com fábricas no Brasil, HP, Lexmark, Epson e Xerox, comprimem o mercado cinza a míseros 5%. “Com 65% dos componentes nacionais, conseguimos um preço muito competitivo, diz Luiz Tedesco, gerente de produtos de imagem e impressão da HP.

Impressoras “cinza” não são montadas. São simplesmente contrabandeadas e vendidas. Micros montados geram capacitação técnica dos profissionais sérios que os produzem (desculpem, o correto é “montam”) e formam mão de obra para a manutenção posterior tanto das máquinas montadas como das de marca. A comparação do mercado de micros com o de impressoras, ou monitores, é infeliz. Monitores e impressoras não foram feitos para serem montados pelo usuário final. Já a arquitetura dos PCs é baseada na modularidade e na possibilidade de serem montadas inúmeras configurações, por técnicos ou pelo usuário final. Não devemos esperar que os micros montados ocupem 30% do mercado dois anos depois do estabelecimento de fabricantes (que estão produzindo há mais tempo que os fabricantes de impressoras), e nem que reduzam a parcela de micros montados para míseros 5%.

A probabilidade de reviravolta nos preços dos PCs é pequena. O maior risco seria uma variação repentina do dólar devido às incertezas do ano eleitoral. Os fabricantes acreditam que as mudanças serão sutis, com dólar custando em torno de 2,40 reais até o fim do ano. “Uma elevação de 10% a 15% não traria um aumento expressivo nos preços, pois aproximadamente metade dos componentes de uma máquina não depende de oscilações do câmbio”, diz Hélio Rotenberg, diretor da paranaense Positivo Informática, atual líder nacional entre os fabricantes de PC.

Está correto para computadores em geral, e não somente para os micros de marca. Os micros de “fundo de quintal” também têm seus preços variando com o dólar e também compram peças no mercado nacional cujo preço final varia pouco com a cotação do dólar.

Em relação à exorcização do micro de marca, lembro à atual geração que até 1992 não era possível comprar com facilidade um micro no Brasil. Em 1987 um micro avançado custava o mesmo que um bom carro. Praticamente só as empresas podiam comprar micros, cujos fabricantes tinham os benefícios da reserva de mercado na informática e ainda recebiam incentivos e ajuda financeira. Empresas ineficientes como Cobra Computadores, Prológica e várias outras sobreviviam bem graças a essa facilidade. O usuário final tinha que se contentar com micros de brinquedo montados pela Gradiente, não podiam ter acesso a um computador sério a não ser através do “mercado cinza”. Com o fim da reserva, em 1992, os micros de marca chegaram ao mercado, mas eram de duas a três vezes mais caros que os oferecidos pelo mercado cinza, em parte devido aos altos impostos, em parte devido ao baixo consumo do mercado brasileiro. Os modelos de marca oferecidos no Brasil pela Compaq, IBM e outros, eram muito fracos. Foram as “máquinas cinza” que promoveram a popularização da informática no Brasil e em poucos anos reduziram bastante o atraso promovido pela reserva de mercado da informática.

A revista não citou que a maioria das “máquinas cinza” usam peças idênticas às usadas pelos micros de marca, ou então melhores.

Saindo do popular

Saindo das máquinas populares, façamos o cálculo de compra de um micro normal, na DELL (modelo Dimension 5150n) e na CDR (www.cdr.com.br), uma das inúmeras empresas que vende “máquinas cinza”, como diz a matéria.

Modelo DELL Dimension 5150n
Placa mãe Intel (não é indicado o modelo site da Dell)
Processador Pentium 4       630, HT, 3 GHz, 2 MB de cache L2
Sistema operacional Não incluso
Memória 1 GB DDR2/533
Disco rígido SATA 160 GB
Unidade de CD/DVD Gravador de DVD 16x
Unidade de disquete Drive de disquete 3 ½”
Monitor Não incluso
Placa de vídeo 128MB ATI PCI-Express X16 Radeon X300
Som Som onboard Intel, 7.1
Alto falantes Não inclusos
Placa de rede Intel 10/100 integrada
Mouse Óptico Dell 2 botões
Teclado Teclado Dell
Garantia 1 ano
R$ 3.111,00
Modelo CDR Expert Pentium 4
Placa mãe Intel D945PLRN-L
Processador Pentium 4       630, HT, 3 GHz, 2 MB de cache L2
Sistema operacional Não incluso
Memória Kingston 1 GB DDR2/533
Disco rígido Seagate SATA 160 GB
Unidade de CD/DVD Gravador de DVD LG 16x
Unidade de disquete Drive de disquete 3 ½”
Monitor Não incluso
Placa de vídeo 128MB ATI PCI-Express X16 Radeon X300
Som Som onboard Intel, 7.1
Alto falantes Não inclusos
Placa de rede Intel 10/100 integrada
Mouse Óptico 2 botões
Teclado Teclado padrão
Garantia 1 ano
R$ 2.580,00

A diferença entre o Dell e o sem nome ficou em torno de 17%. Note que o micro “cinza” tem especificadas as marcas dos seus principais componentes: placa mãe Intel, memória Kingston, HD Seagate. Ao comprar um micro de marca, dificilmente conseguimos saber se a placa mãe é Intel ou PC Chips, se o disco rígido é Seagate, Samsung, Hitachi ou outra marca (não estamos colocando em questão a qualidade dessas marcas), se a memória é Kingston ou Spectek.

Conferindo os preços e o parcelamento

Um ponto bastante positivo é o parcelamento em 24 vezes com juros baixos. Entretanto nem sempre esses parcelamentos são tão generosos. Veja por exemplo os parcelamentos oferecidos pela Dell para seus produtos:

6 x sem juros no cartão de crédito
12 x no cartão de crédito com juros de 1,99% ao mês
6 x no cheque, com juros de 0,99% ao mês
até 24x na financeira, com juros de 3,17% ao mês

Os parcelamentos em 24x nem sempre estão disponíveis. Veja por exemplo as opções para um computador Positivo vendido na Kalunga. Na verdade a disponibilidade de parcelamento depende da loja, e não do fabricante.
Parcelamentos para computador Positivo

002

O computador do milhão tem configuração bastante modesta. O modelo abaixo vem com monitor de 15” e Windows XP Home Edition, itens que não foram cotados nos modelos Dell e CDR que apresentamos.

003
Micro do milhão: “apenas” R$ 2100,00

Por 1200 reais à vista podemos comprar no Ponto Frio um computador HP, com processador Celeron D de 2.8 GHz, 128 MB de RAM, drive de CD-ROM, monitor de 15”, vídeo onboard SiS, com sistema Linux. É uma boa hora para aprender a usar o Linux, ou então gaste mais 500 reais no Windows, ou então mais 10,00 no Windows pirata (será que um micro “de marca” aceita usar Windows pirata, revista Veja?). Mas o parcelamento é em 12 vezes de R$ 119,95. Aquele de 50 reais por mês está difícil de encontrar…

004

O computador Dell Dimension 1100n parece uma pechincha. Está anunciado por R$ 850 no site da Dell, mas sem monitor e sem sistema operacional. Ainda assim parece um bom preço. A configuração básica é:

Processador Celeron 2.8 GHz
256 MB de RAM
HD de 80 GB

Por 850 reais está bem razoável, mas é sem unidade de disquetes e com drive de CD-ROM. Adicionando uma unidade de disquetes o preço sobe para R$ 915,00. Adicionando um gravador de CDs o preço vai para R$ 1.113,00. Adicionando o preço do monitor, o custo será equivalente ao de outros micros baratos. Pelo menos a placa mãe desse computador é Intel.

Fizemos também uma consulta no Ponto Frio, pois lá certamente teríamos informações precisas sobre parcelamento em mais de 12 vezes. Lá encontramos dois micros:

NEO PC
Processador Celeron D 2.26GHz
Placa-mãe Gigabyte.
HD 40 GB
256 MB RAM
Gravador de CDs
S.O. Linux (derivado do Kurumin)
Monitor 15”
R$ 1.099,00 à vista; 1+11x R$ 107,14, juros 2,98% a.m.

Até aqui, nada de parcelamento em 24x. Finalmente encontramos no próprio Ponto Frio um computador CCE:

CCE
Processador Celeron D 310
Placa mãe PC Chips
HD 40 GB
256 MB RAM
Gravador de CDs
S.O. Linux
Monitor 17”
R$ 1.199,00 à vista, 1+23x R$ 85,90, juros 5,43 % a.m.

Finalmente o tal parcelamento em 24x, mas os juros como sempre são bem salgados, e a prestação fica bem acima dos sonhados 50 a 70 reais mensais.

Anunciantes

Consultando algumas edições da Veja nos últimos 6 meses, encontramos diversos anúncios de página inteira, de fabricantes de micros “de marca”:

Lenovo: 4
Positivo: 4
HP: 4
Itautec: 3
Dell 2:
Casas Bahia: vários
Ponto Frio: vários

Uma mente maldosa poderia pensar que a matéria foi feita para prestigiar os anunciantes, entretanto esses anúncios sempre existiram, mesmo em épocas nas quais a revista não publicava matérias como essa. Os anúncios de lojas que vendem micros “de marca” como Ponto Frio e Casas Bahia são constantes em todas as revistas, em todas as épocas, então não existe anormalidade aqui. Além disso a Veja tem muito mais anúncios de outras empresas (bancárias, telefônica, automobilística) que de informática. Estranho seria ver uma matéria como essa em revistas como a Info, que é do mesmo grupo de Veja. Entretanto, apesar do público de Veja parecer aceitar bem esse tipo de matéria, é pouco provável que os leitores da Info, mais próximos da informática, aceitem essa exorcização das “máquinas cinza”.